Conto Extra

A decisão

sábado, 16 de julho de 2011



Já vinha há algum tempo pensando naquilo que estava prestes a fazer, aquilo a estava incomodando muito. E não havia outra forma, mesmo que isso colocasse sua vida em risco, ela ia faze-lo.

 Jéssica e Paola estavam andando juntas a caminho do curso (sendo esta segunda como espectro, apenas). Mesmo desse jeito, elas conversavam, amigavelmente.
Enquanto conversavam, Paola pensava: “Eu preciso fazer, já que eu sou mais inteligente, mais forte, não preciso dela comigo, e sei exatamente como fazer isso."
Ela havia lido muito a respeito (não gostava, mas era necessário), ultimamente, de um tipo de “divisão de alma”. Alguns estudos e rituais de povos antigos diziam que, para aniquilar uma parte do “ser” era necessário que a outra parte deixasse o corpo fraco com algum dano físico (um acidente, por exemplo). Assim, a parte da alma dentro do corpo estaria fraca e o espectro, mais forte com a vantagem de não ter sido afetado pelo acidente, poderia travar uma batalha interna com ela.
Em um dos livros antigos que leu tem uma descrição:

“Em meio ao mar revolto, certo homem velejava apenas na companhia de seu outro espírito, sendo que este só o observava manejar o leme. Aos poucos, o mar foi se acalmando. E, ao barco chegar próximo à praia, quando ele estava prestes a pisar na parte rasa da água, seu outro espírito o empurrou e ele caiu de cabeça em um conjunto de rochas. Logo, vendo que o corpo ficou desacordado, o outro espírito tomou seu corpo e uma batalha “interna” começou. Após alguns instantes, o corpo se lavantou com um sorriso zombeteiro e saiu em direção à praia.”

 Havia uma observação abaixo da inscrição, que deixou Paola um pouco atordoada, porém sem medo.

“Para efeito correto do RITUAL, o corpo deve permanecer apenas inconsciente. Ou seja, o golpe ocasionado não deve ser forte o suficiente para MATAR, ou causará a morte de AMBOS os espíritos.”

 Quando Paola viu a palavra ACIDENTE, ela pensou: “Ótimo! Sabia que não precisava aguentar a mala da Jéssica comigo para sempre! Sabia que tinha um jeito! Amanhã é perfeito, ela não vai sair dessa viva, ou eu não me chamo Paola."
Como os pensamento de Jéssica e Paola não eram compartilhados, Jéssica não desconfiava de nada.

 E assim aconteceu ...

 Jéssica estava conversando animadamente com Paola, que só acenava a cabeça. Estava tão empolgada na conversa, que nem olhou direito para atravessar a rua. Então, Paola aproveitou e a empurrou. Ela caiu, espatifando-se no chão, no mesmo instante em que vinha um caminhão na sua direção. Jéssica não tinha escapatória, o motorista do caminhão até chegou a vê-la, mas estava muito próximo. Ele não conseguiu desviar. A sorte foi que Jéssica estava deitada bem em direção ao meio do caminhão e, assim, não sofreu nada. Mas, ao se preparar para se levantar, veio em seguida um ônibus. Já que os ônibus têm o seu eixo mais baixo, ela não ia ter como escapar. Só conseguiu fechar os olhos e cobrir a cabeça com os braços. Foi nesse instante que ela percebeu a demora para ser atropelada. Quando abriu os olhou, ficou surpresa.

Realmente, tudo tinha parado, mas havia uma espécie de espelho enorme com uma luz brilhante diante de seu rosto. De onde apareceu uma garota loira, que começou a chamá-la:
- Venha, você e a sua "alter".
Jéssica, meio atordoada com a situação, perguntou:
- Quem é você? Por que tenho que ir?
E teve como resposta:
- Não importa quem eu sou, agora! Alguém precisa da nossa ajuda. E, se vc não vier, vai acabar morrendo! Olhe você mesma!

Até aquele momento, ela não tinha entendido o motivo da sua queda. Mas, agora, tinha entendido TUDO!

Assim, ela deu a mão à garota, e Paola, com a cara mais frustrada, foi também.

Escrito por Jéssica Paola.

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